KAVA

Piper methysticum
As propriedades anticonvulsivas, de relaxamento muscular e de anestesia local podem ser explicadas pela inibição dos canais de sódio e cálcio dependentes da voltagem [8,13,14,15]. Estudos demonstraram que a kavaina (figura 10), uma das kavalactonas em maior concentração na planta, tinha a capaxidade de remover o ligando [H]-batracotoxinina-A 20α-benzoato do local 2 do recetor dos canais de sódio dependentes da voltagem, sendo que este ligando é um ativador desses mesmos recetores [1,16,17].
Esta inibição vai conduzir à supressão da libertação do glutamato endógeno, que é um neurotransmissor excitatório do sistema nervoso central (SNC), pelo que as kavalactonas têm, então, uma ação depressora do SNC [14].
Contudo, para as outras propriedades mais conhecidas e exploradas da Kava ao nível do sistema nervoso central, como são a ansiolítica e a hipnótica, o mecanismo de ação continua por esclarecer. Recetores no SNC, mais concretamente o recetor do GABA (ácido gama-aminobutírico), podem ser afetados pelas kavalactonas [13]. Os estudos realizados têm sido contraditórios quanto à capacidade de ligação das kavalactonas ao recetor do GABA [14], sendo que uns sugerem não haver qualquer interação entre os compostos ativos da Kava e estes recetores [13], enquanto que outros demonstram uma potenciação da atividade do GABA pelas kavalactonas, embora pareçam não atuar diretamente no recetor [8,18].
Outro mecanismo que pode estar envolvido no efeito ansiolítico demonstrado pela planta é a alteração nos níveis dos neurotransmissores, tanto pelo bloqueio da MAO-B [14,19] como pela modulação dos sistemas serotoninérgicos e glutaminérgicos [18]. Para além disso as kavalactonas constituem antagonistas dos recetores da dopamina [18].
A Kava atua, ainda, pela inibição da COX (cicloxigenase) e da TXS (tromboxano sintase), razão que justifica as suas propriedades anti-trombóticas [20]. Para além da inibição da COX e da TXS, com consequente diminuição na produção de prostaglandina E2 e tromboxano A2 [12], as kavalactonas contrariam, ainda, a agregação plaquetária induzida pelo ácido araquidónico e inibem a exocitose do ATP [20].
Por último, estudos demonstraram que uma das 6 kavalactonas principais, a yangonina (figura 11), possui afinidade para o recetor CB1, que é um recetor endocanabinoide que pode, então, estar também envolvido nas características ansiolíticas da Kava [1,21].
Figura 10: Estrutura molecular da kavaina.

Figura 11: Estrutura molecular da yangonina.

Farmacodinâmica
Referências:
[1] Authority, A.N.Z.F. and F.S.A.N. Zealand, Kava: A Human Health Risk Assessment. 2005: Australia New Zealand Food Authority.
[2] Pantano, F., et al., Hepatotoxicity Induced by “the 3Ks”: Kava, Kratom and Khat. International Journal of Molecular Sciences, 2016. 17(4): p. 580.
[8] Bodkin, R., et al., Rhabdomyolysis associated with kava ingestion. Am J Emerg Med, 2012. 30(4): p. 635.e1-3.
[13] Dinh, L.D., et al., Interaction of various Piper methysticum cultivars with CNS receptors in vitro. Planta Med, 2001. 67(4): p. 306-11.
[14] Geier, F.P. and T. Konstantinowicz, Kava treatment in patients with anxiety. Phytother Res, 2004. 18(4): p. 297-300.
[15] Gleitz, J., et al., Anticonvulsive action of (+/-)-kavain estimated from its properties on stimulated synaptosomes and Na+ channel receptor sites. Eur J Pharmacol, 1996. 315(1): p. 89-97.
[16] Friese, J. and J. Gleitz, Kavain, dihydrokavain, and dihydromethysticin non-competitively inhibit the specific binding of [3H]-batrachotoxinin-A 20-alpha-benzoate to receptor site 2 of voltage-gated Na+ channels. Planta Med, 1998. 64(5): p. 458-9.
[17] Deecher, D.C., G.T. Payne, and D.M. Soderlund, Inhibition of [3H]batrachotoxinin A 20-α-benzoate binding to mouse brain sodium channels by the dihydropyrazole insecticide RH 3421. Pesticide Biochemistry and Physiology, 1991. 41(3): p. 265-273.
[18] Cairney, S., P. Maruff, and A.R. Clough, The neurobehavioural effects of kava. Aust N Z J Psychiatry, 2002. 36(5): p. 657-62.
[19] Uebelhack, R., L. Franke, and H.J. Schewe, Inhibition of platelet MAO-B by kava pyrone-enriched extract from Piper methysticum Forster (kava-kava). Pharmacopsychiatry, 1998. 31(5): p. 187-92.
[20] Gleitz, J., et al., Antithrombotic action of the kava pyrone (+)-kavain prepared from Piper methysticum on human platelets. Planta Med, 1997. 63(1): p. 27-30.
[21] Ligresti, A., et al., Kavalactones and the endocannabinoid system: the plant-derived yangonin is a novel CB(1) receptor ligand. Pharmacol Res, 2012. 66(2): p. 163-9.